Beber chá russo é todo um ritual de hospitalidade, mantido tanto em palácios reais quanto em casas camponesas. É um processo tranquilo, com longas conversas e uma abundância de petiscos na mesa.
Como o chá chegou à Rússia
A história do chá na Rússia começou em 1636, quando embaixadores russos trouxeram chá chinês como presente ao czar Mikhail Fedorovich do governante mongol Altyn Khan. A Rússia, ao contrário da Mongólia, não tinha relações comerciais diretas com a China. Por isso, Altyn Khan decidiu oferecer o chá como um produto valioso e na moda, que era muito popular na Mongólia.
A bebida não causou grande impressão no czar, a cultura do chá não era familiar na Rússia. Vasily Starkov, um desses embaixadores russos, descreveu suas impressões sobre chá da seguinte forma: “Chá é algo inédito aqui. Não sei se devo considerar isso uma árvore ou uma grama. O chá é fervido em água, o leite é adicionado e bebido quente.”
Nessa época, bebidas geladas eram servidas à mesa como sucos de fruta ou kvass. Os quentes eram sbiten, uzvar e infusões de ervas, que não eram consumidas durante as refeições, mas sim como remédio para resfriados ou para se aquecer no frio (em viagens ou feiras, por exemplo).
Sbiten foi uma das bebidas quentes mais populares até o século XVII. Trata-se de uma bebida encorpada e picante, preparada com mel, especiarias e ervas. Às vezes, usava-se vinho ou cerveja no lugar da água.
Vzvar (uzvar) é uma bebida doce e leve, parecida com compota, feita de frutas secas, frutas vermelhas, ervas e mel.




As entregas regulares de chá para a Rússia foram estabelecidas no final do século XVII, com o início do reinado de Pedro I. O czar valorizava muito as novidades gastronômicas importadas, para ele, elas eram um símbolo de progresso e da europeização da Rússia. Por isso, muitos nobres e comerciantes introduziram o hábito de beber chá no dia a dia de suas famílias, a fim de conquistar a simpatia do czar.
Enquanto o chá chegava à Europa por via marítima, para a Rússia ele era transportado principalmente por terra, em caravanas de camelos e cavalos. A rota do chá sino-russo passava pela Mongólia e era muito longa: de 6 a 8 meses.
O destino das caravanas era uma pequena cidade chamada Kyakhta (República da Buriácia), que logo se transformou em um grande centro do comércio russo-chinês. A “Grande Rota do Chá”, como era chamada, existiu até o final do século XIX, quando a ferrovia foi construída na Sibéria.
Na longa viagem, era importante preservar a qualidade do chá. Ele era embalado em “tsibiki” (do mongol “trançado”, “caixa trançada”), caixas trançadas de junco. Cada tsibik comportava cerca de 30 kg de chá. No interior, as paredes da caixa eram revestidas com papel ou folha de chumbo (para as variedades mais caras), e por fora eram cobertas com couro.
Nesse período, o chá era muito caro, acessível apenas às pessoas mais ricas da nobreza, comerciantes e moradores da cidade. Meio quilo de chá (cerca de 410 gramas) custava o mesmo que 50 kg de caviar ou de 2 a 3 vacas.

O florescimento da cultura do chá e o aparecimento do samovar
Na década de 1880, surgiu na Rússia o chá indiano e do Sri Lanka, graças às relações comerciais com a Grã-Bretanha. Esses chás eram mais acessíveis que o chinês — devido à conveniente entrega marítima e preços melhores. Nesse período, a Grã-Bretanha buscava competir com a China no mercado do chá por meio de suas plantações coloniais, reduzindo assim os preços.
Após a construção da Ferrovia Transiberiana (final do século XIX e início do XX), importar chá para a Rússia tornou-se ainda mais fácil e barato. Foi assim que o chá entrou no cotidiano das pessoas de alta e média renda, enquanto os camponeses mais pobres podiam consumi-lo apenas em ocasiões festivas.
As tentativas de cultivar um chá “genuinamente” russo já existiam desde 1814, mas até o século XX não obtiveram sucesso. O clima e a concorrência das importações tornavam a produção local inviável. Foi apenas na era soviética que surgiu o chá georgiano, que passou a ocupar um lugar significativo no mercado.
Até meados do século XVIII, a água para bebidas quentes era fervida no forno ou em fogo aberto. Esse método não era muito prático: era necessário acender o fogo ou o forno, esperar a água esquentar e depois mantê-la aquecida.
Foi nesse contexto que o samovar se tornou uma verdadeira inovação. Ele permitia manter a temperatura da água durante longas cerimônias do chá, era compacto e conferia elegância à mesa.




As primeiras aparições do samovar russo ocorreram na década de 1740, nos Montes Urais, embora o nome do inventor deste dispositivo permaneça desconhecido.
A partir da década de 1820, Tula tornou-se a capital do samovar, foi lá que surgiram as primeiras oficinas especializadas na sua fabricação. Tula era o centro da metalurgia e da indústria armamentista na Rússia e, naturalmente, os artesãos locais possuíam vasta experiência no trabalho com metais.
Os samovares eram feitos, na maioria das vezes, de cobre. No centro do dispositivo ficava a fornalha, um tubo preenchido com brasas. Na parte inferior do tubo, havia uma entrada de ar, uma abertura com uma portinhola para regular a circulação de ar. A água fervia no reservatório ao redor do tubo, e, sobre o queimador na parte superior, era colocado um bule com o chá concentrado.
Os convidados serviam um pouco desse chá concentrado e o diluíam com água fervente a gosto. Os estrangeiros chamavam o samovar de “máquina de chá russa”, não havia análogos no exterior.
O samovar tornou-se o principal símbolo do chá russo, e todo o ritual do chá era construído ao seu redor.
Enquanto na Europa o café e o chá dividiam a preferência, na Rússia o chá foi o favorito absoluto. O café, trazido da Holanda por Pedro I, era consumido nos salões nobres de São Petersburgo e Moscou, mas a principal bebida quente, tanto para a nobreza quanto para o povo, era o chá.
As tradições do chá na Rússia incluíam o consumo da bebida no café da manhã, à tarde e entre 21h e 22h. O samovar era levado em viagens longas, até mesmo em trens, e abastecido com água em cada estação. Os estrangeiros ironizavam esse costume. “No trem, os russos fazem de seu vagão uma casa de chá.”, escreveu um viajante alemão em suas memórias.
Na cultura russa, o ato de tomar chá é frequentemente mencionado como uma forma de se acalmar, desacelerar e recuperar as forças. Isso se reflete em provérbios populares: “Tome um chá e esquecerá a tristeza”, “Beber chá é viver sem se afligir”, “Se não beber chá, não terá forças.”




A partir do século XIX, Moscou tornou-se a capital do chá na Rússia. Surgiram grandes casas de chá, lojas especializadas e tabernas. Em Moscou, desenvolveu-se uma tradição própria: o chá era consumido extremamente forte e escaldante.
Sobre o chá mal passado, surgiu o ditado: “Esse chá é tão fraco que dá para enxergar Moscou através dele”. Um moscovita recusava esse tipo de chá, assim como o servido diretamente de um bule, a água fervente, para ele, só era digna se fosse servida diretamente do samovar.
Chá na URSS
Na era soviética, o chá tornou-se verdadeiramente uma bebida popular. Se no século XIX ele ainda carregava um certo ar de luxo, entre as décadas de 1930 e 1950 o hábito de tomar chá consolidou-se definitivamente como um ritual cotidiano.
Os principais fornecedores de chá passaram a ser a Geórgia e o Azerbaijão, onde surgiram as primeiras grandes plantações. No final dos anos 1960, essas regiões já supriam a maior parte da demanda interna do país. Devido à ênfase na produção nacional, à escassez de divisas estrangeiras e às relações conturbadas com a China, o chá importado tornou-se artigo raro. Na maioria das vezes, era destinado a “distribuidores especiais” e pouco acessível ao cidadão comum.
Os “distribuidores especiais” eram lojas e depósitos “fechados” na URSS, onde chegavam mercadorias raras ou em falta (chá importado, café, embutidos, conhaque etc.), e cujo acesso não era permitido a todos. Geralmente, esses estabelecimentos eram criados para atender funcionários do Partido, altos burocratas, categorias específicas das Forças Armadas e servidores de determinados ministérios.
Assim, a variedade mais comum de “chá russo” na época soviética era o chá preto baikhovi (ou seja, de folhas soltas) georgiano. Era vendido em pacotes, latas de metal ou caixas de papelão com ilustrações.




Mas o amor pelo chá e o hábito de bebê-lo várias vezes ao dia permaneceram. O chá era tomado na cozinha, com a família ou com convidados, em mesas simples, com bule esmaltado, louça de faiança ou porcelana (em dias festivos) e talheres de alumínio. Em cantinas e bufês, o chá era servido em copos facetados, às vezes já com açúcar e limão adicionados.
Nos trens, passaram a servir chá em copos com pesados porta-copos de metal, ornamentados com entalhes que exibiam vistas de Moscou, o brasão soviético e símbolos da ciência e do trabalho.

As tradições do chá na Rússia seguem vivas até hoje, nos pequenos rituais de cada família e em alguns restaurantes. O chá à moda russa tornou-se símbolo do prazer pelo momento presente, da hospitalidade e do convívio com os entes queridos, afinal, “com o chá, a conversa flui melhor”.
O chá russo e o ritual do chá na Rússia incorporaram muitas influências: a alma calorosa e sincera dos encontros camponeses, a generosidade das mesas de comerciantes e o refinamento dos salões da nobreza.
Fontes: gastronom.ru, tulasuvenir.ru, dzen.ru, pravmir.ru, tursar.ru e kulturologia.ru

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