Tolstói e Dostoiévski foram dois grandes contemporâneos cujas trajetórias de vida e criação artística, embora por vezes se aproximassem, jamais se cruzaram pessoalmente.
Ambos viveram, criaram e buscaram a verdade na mesma época na Rússia. Compartilharam amigos em comum, conhecidos e editores. Seus pensamentos e personagens frequentemente se encontravam no espaço espiritual do país. No entanto, nunca se conheceram, nunca trocaram correspondências e sempre sentiram a falta de um contato vivo.

Esse paradoxo se tornou um enigma que muitos tentam decifrar até hoje. Quando questionado sobre como não ter se encontrado com Dostoiévski, Tolstói respondeu: “Foi por acaso. Ele era uns oito ou dez anos mais velho. Eu desejava vê-lo”. Dostoiévski, por sua vez, escreveu ao crítico Nikolai Strakhov: “Diga-me, você conhece Liev Tolstói pessoalmente? Se sim, escreva-me, por favor, como é esse homem? Tenho um interesse imenso em saber algo sobre ele”.
Ambos já eram escritores renomados e circulavam nos mesmos círculos. Conheceram Ostrovski, Turguêniev, Gontcharóv, Nekrássov. Alexandra Tolstáia, prima e confidente de Liev Tolstói, encontrou-se com Dostoiévski. Os dois escritores também conheciam o filósofo Vladimir Soloviov e, sabe-se, certa vez estiveram juntos em uma de suas palestras em São Petersburgo, mas não foram apresentados. Ambos lamentaram profundamente isso.
Tolstói disse certa vez a Anna Dostoiévskaia, viúva do escritor: “Dostoiévski era uma pessoa muito querida para mim e, talvez, o único com quem eu poderia perguntar sobre muitas coisas e que poderia me responder”. Dostoiévski, por sua vez, planejou visitar Tolstói em Iásnaia Poliana em 1880, após as celebrações em homenagem a Pushkin em Moscou, mas não conseguiu realizar a viagem.
Em suas obras e artigos, frequentemente abordavam temas comuns, cada um a partir de sua visão de mundo. Acompanhavam atentamente a produção um do outro. Dostoiévski comentou as obras de Tolstói em seus romances e no “Diário de um Escritor”. Em sua biblioteca, havia uma coleção das obras completas de Tolstói em oito volumes. Já nas cartas de Tolstói e nas memórias de pessoas próximas, há diversos registros de suas impressões sobre Dostoiévski.
Dostoiévski demonstrava grande interesse pela obra de Tolstói, especialmente por “Ana Karenina”, à qual dedicou dois capítulos de seu “Diário”, considerando-a uma obra-prima sem paralelo na literatura europeia da época. Tolstói, por sua vez, tinha “Recordações da Casa dos Mortos” em altíssima estima, afirmando ser “o melhor livro de toda a nova literatura, incluindo Pushkin”. Ao saber da morte de Dostoiévski, emocionou-se: “Nunca o vi e nunca tive relações diretas com ele, e, de repente, quando ele morreu, entendi que ele era o homem mais próximo, mais querido e mais necessário para mim”.
Nos últimos anos de vida, ambos estavam imersos em buscas espirituais semelhantes. Visitaram, em diferentes momentos, o Mosteiro de Óptina Pústinh, onde encontraram o starets Amvrósi, que se tornaria o protótipo do padre Zóssima em “Os Irmãos Karamázov”. Na biblioteca pessoal de Tolstói em Iásnaia Poliana, há um exemplar desse último romance de Dostoiévski, com diversas marcações feitas por ele. Pouco antes de deixar Iásnaia Poliana para sempre, em outubro de 1910, Tolstói lia “Os Irmãos Karamázov” mais uma vez.
As Conexões através de Alexandra Tolstáia
Um episódio revelador envolve Alexandra Andriévna Tolstáia, prima e amiga íntima de Liev Tolstói, com quem ele mantinha uma longa correspondência, compartilhando suas dúvidas e buscas espirituais. No final da década de 1870, Alexandra se aproximou de Dostoiévski em São Petersburgo. Sabendo do interesse mútuo, Dostoiévski perguntou se ela teria algo escrito por Tolstói que revelasse suas novas ideias religiosas. Alexandra mostrou-lhe uma carta em que Tolstói confessava não poder acreditar em dogmas como a ressurreição, considerando-os uma “mentira criada para fins humanos”. Ao ler, Dostoiévski, profundamente perturbado, exclamou: “Não é isso, não é isso!”. Quis responder a Tolstói, mas faleceu poucos dias depois, deixando no ar a questão: teria Dostoiévski conseguido influenciar Liev Tolstói?
A Herança de Dostoiévski nos Últimos Anos de Tolstói
Nos últimos anos de vida, Liev Tolstói dedicou-se a compilar antologias de pensamentos para leitura diária, como “Para Cada Dia” e “O Caminho da Vida”. Em 1910, pediu a seu secretário que selecionasse aforismos de Dostoiévski. Das 64 ideias apresentadas, Tolstói escolheu 34 para incluir em suas coletâneas, demonstrando a profunda sintonia que encontrava com o pensamento do escritor que nunca conheceu. Dois desses pensamentos selecionados foram: “A verdadeira liberdade está em dominar a si mesmo e a própria vontade” e uma reflexão sobre por que pessoas limitadas cometem menos tolices do que as inteligentes.
Esse artigo foi baseado no manual bibliográfico: Лев Толстой и Фёдор Достоевский – МУК «Тульская библиотечная система»

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